Ouvidos e orelhas
Cláudio Moreno
Uma leitora que presumo muito jovem – o e-mail veio todo enfeitado de carinhas amarelas que piscam o olho freneticamente para mim – escreve para saber se “algo” que ela ouviu de “certa” pessoa “está valendo”. O estilo é peculiar, a precisão é incomparável: “Professor: ouvido e orelha. Uma pessoa muito sábia disse que uma dessas palavras havia sido extinta de nosso idioma; a pessoa, no caso, não lembrava exatamente qual das duas. Procurei muito no Google e não achei nada sobre o fato – se é que é fato – o senhor me entende?”.
Entendo, sim, e muito bem. “Uma pessoa muito sábia”? Posso imaginar! Deve ser realmente muito sabida uma criatura que faz tão absurda afirmativa – uma palavra que se extingue, vejam só! – e que, para remate da ópera, esquece de qual dos dois termos está falando. Palpiteiro e, ainda por cima, desmemoriado? Vade retro! Mas vejo que tua intuição, prezada leitora, levantou uma peninha de desconfiança providencial, que te levou ao Google e, finalmente, a esta coluna. Para começar, não existem palavras extinguíveis; depois que elas nascem, nada as faz morrer e o máximo que pode acontecer com elas é entrar em hibernação. Vamos continuar a usá-las –tanto orelha quanto ouvido – enquanto nosso idioma for falado em nosso planeta.
Outra coisa é o emprego desses vocábulos na linguagem técnica ou cientifica. O fenômeno ocorre em todas as áreas profissionais, que precisam definir – para os profissionais que fazem parte daquele ramo – o significado que deve ser atribuído a cada termo empregado. No mundo jurídico, por exemplo, roubo e furto são coisas distintas porque o primeiro pressupõe a presença da vítima, que é intimidada ou forçada a entregar o bem, enquanto o segundo é executado furtivamente pelo ladrão (apesar de lugar comum, confesso que ainda acho certa graça no eufemismo “amigo do alheio”), que vai praticar o seu crime sem que a vítima tome conhecimento. Para mim e para ti, para o mundo real, no entanto, essa distinção não vale um prego; se levaram meu carro – seja durante minha ausência, seja com ameaça ou violência contra mim, vou dizer para todo o mundo que meu carro foi roubado.
Os médicos, por sua vez, seguem em suas comunicações, a Nomina Anatomica (é Latim, e por isso não leva acento; a pronúncia é /nômina anatômica), lista periodicamente revisada de todos os nomes relativos ao corpo humano – músculos, órgãos, tendões, ossos e tudo o mais que compõem nossa perecível carcaça. Atualmente esta publicação começa a ser substituída pela Terminologia Anatomica (também em Latim, também sem acento; há os que se opõem a esta troca de nome, mas isso é assunto interno que cabe às academias médicas decidir), e ali – ao menos no Brasil – há uma tendência de substituir o termo ouvido por orelha, passando o antigo “ouvido interno”, por exemplo, a ser chamado de “orelha interna”. Posso imaginar o espanto com que o leigo há de ouvir essa expressão... Como podes ver, a Medicina não extinguiu o termo ouvido, o que seria impossível, mas apenas passou a recomendar (repito: no Brasil, mas não em Portugal) que se adotasse preferencialmente orelha.
Não me interessa saber por que fizeram isso, pois devem ter lá razões técnicas suficientes, mas asseguro-te que essa alteração em nada vai influir em nossas vidas, prezada leitora. Eu e tu ainda continuaremos a distinguir uma “dor no ouvido” de uma “dor na orelha”; se alguém vier nos fazer uma confidência, vamos dizer “sou todo ouvidos” (e nunca “sou todo orelhas”); quem não se importar com o que os outros dizem continuará a fazer “ouvidos de mercador” (e não “orelhas de mercador”); se meu filho tiver dom para a música, vou afirmar que ele tem “um bom ouvido” (e não “uma boa orelha”) – e assim por diante.
Isso é exatamente o que acontece com os vocábulos ave e pássaro. Para mim, o condor e um grande pássaro que vive nas alturas geladas dos Andes, gigantes como o pássaro-roca das 1001 Noites; para os biólogos, contudo, o condor pode ser uma ave, mas não é pássaro coisa nenhuma – assim como também não o são o papagaio, a garça, o tucano, o beija-flor, a ema, o gavião e a rolinha. Para mim e para os leigos, pássaro é o que voa; se for pequeno, é passarinho. Na linguagem técnica do Português, todo pássaro é ave, mas nem toda a ave é pássaro – diferente do Francês ou do Inglês, em que oiseau e bird, respectivamente, se aplicam a qualquer espécie de vertebrado plumado.
Sábado, 27 de agosto de 2011.
Desenvolvido por Carlos Daniel de Lima Soares.